Educação Infantil em foco: Um olhar sobre os pequenos

Olá! Meu nome é Silvana, sou Professora de Educação Infantil.

       Gostaria de relatar um pouco das minhas experiências em meio a Pandemia e como as nossas escolas estão vazias, sem os nossos pequenos. Eu jamais imaginei que uma Pandemia tão inesperada, pudesse subverter tantos projetos de vida e que não seria diferente com a educação infantil.

       No início de tudo o pavor quis imperar, em seguida fui tomada por muitas incertezas e uma sensação infinita de impossibilidades em relação a educação infantil, foi como se eu estivesse abandonado um “filho pequeno” ao acaso, no vazio, assim como tantas histórias da primeira infância.

      Ao retomar o fôlego diante de toda situação mundial, foi possível compreender que as crianças estavam fora do grupo de risco na maioria dos países, um alívio em meio a tanta dor espalhada pelos países que foram tornando-se um epicentro da pandemia: Itália, Espanha e Estados Unidos. No Brasil, a história foi diferente, não foram tantas mortes de adultos em relação aos outros países, porém, as notícias apontam que já perdemos mais de 100 crianças:Brasil tem mais de 100 crianças e jovens com até 19 anos mortos pela Covid-19”. (Fonte – G1 por Felipe Grandin).  

        O retorno das crianças às escolas parece um fato distante e sem prerrogativas. Os órgãos do governo manifestam-se com medidas de segurança, decretos municipais de prevenção e combate ao contágio. Em alguns momentos é nítido, que nem mesmo os mais experientes líderes do governo tem uma direção definida para nos orientar. São opiniões divergentes, com conflitos entre as instâncias de poder e há uma verdadeira “guerra de coroas” lutando concomitante ao covid 19.

       No âmbito escolar, gestores e coordenadores se revezam em liderar treinamentos aos professores e estagiários. As perspectivas de retorno às escolas, ainda sem uma data confirmada, tem sido tema de constantes debates entre educadores, mestres, doutores, órgãos de saúde e órgãos sociais. Até que estabeleça uma postura coordenada e seja definido o grande dia do retorno, é importante prosseguir sem desistir.

Repensando os princípios fundamentais na Educação Infantil

          Através deste relato pessoal, venho expressar as minhas experiências desde o planejamento (com reflexão pedagógica) ao desenvolvimento de propostas educacionais (interações com as famílias) para esse momento de pandemia. Interações estas, que consistem em “levar a escola para as crianças”, mesmo que de forma remota com o uso constante da tecnologia.

         No primeiro momento me assustei! Por não possuir o conhecimento adequado para utilizar destas novas ferramentas de ensino com os pequenos. Sabe-se que a educação a distância jamais se aplicaria as faixas etárias da Educação Infantil.

         Ao mesmo tempo, houve dentro de mim um misto de tristeza e angústia. O sentimento de tristeza era devido a impressão de que havíamos abandonado a Educação Infantil a própria sorte. Se para mim, este sentimento era real, imagino para as crianças. Seria como uma segunda mãe ou um pai tendo ido embora repentinamente de suas vidas? Comecei a pensar com calma e compreendi que estas interações com as famílias, poderiam ser a solução emergencial para suprir uma ausência sem tamanho, causada pela pandemia mundial do corona vírus (covid 19).  

        No retorno dos profissionais da educação para as escolas, ainda que no contexto de pandemia, todos os professores PDs (professor por tempo determinado, como eu), deveriam mergulhar nos estudos. E para isso, a Secretaria de Educação nos enviou um documento com uma lista de Lives e Cursos de atualização sobre a rotina escolar, a pandemia e a BNCC – Base Nacional Comum Curricular.

         Deveríamos então, assistir, estudar e relatar o conteúdo para possíveis reflexões pedagógicas. Estas Lives e Cursos me ajudaram a perceber e repensar sobre a minha responsabilidade de educadora da Educação Infantil. 

       Foi um mergulho em referenciais teóricos, com nome de grandes estudiosos e pesquisadores da Educação Infantil. Todos com um olhar para o crescimento e desenvolvimento da criança nos anos iniciais. Foram dias de grande aprendizado, com inúmeras reflexões e de uma certeza: “Não se pode levar a educação a distância para a infância”, porque a infância é sinônimo de vivência, de experiência, de toque, de abraço e de afeto. Todas as crianças tem direito de interagir e brincar. E o nosso papel como educadores é proporcionar essas vivencias de forma a organizar o espaço e os materiais para estes momentos. Ações que devem ser planejadas com intencionalidade pedagógica e desenvolvidas na escola, onde temos à disposição toda a estrutura para uma rotina equilibrada.  

         O que poderia ser feito para amenizar este impacto de um longo tempo sem contato? A resposta são as interações. Os materiais e espaços continuariam os mesmos, no entanto, a maneira de comunicar mudaria. Nossos conceitos sobre ensinar, sofreriam mudanças e afetariam as nossas vidas, de forma positiva. Então surge diante de nós a realidade de obter novos conhecimentos e habilidades para sobreviver nas “terras” da tecnologia.

       O estudar sobre o aprendizado durante a pandemia seria a nossa música. Diante de nós estava a necessidade de aprender a trabalhar com ferramentas da educação inovadora. Mas pensar em tudo o que precisávamos aprender, para desenvolver algo a ensinar, sem refletir que este momento é adverso tanto para as crianças, como para as famílias e para as escolas, seria improdutivo.

       Entendi, que antes de pensar em como iria desenvolver a produção das propostas, precisava reafirmar alguns princípios fundamentais:  A criança deve ser o foco principal que norteia as ações de um educador.  “A criança aprende com base em dois eixos que são as interações e as brincadeiras, ela tem direito a aprendizagem e isso deve ser proposto através dos campos de experiências e dos objetivos de ensino”, como nos afirma Beatriz Ferraz.  O professor tem a missão de criar contextos para que a aprendizagem aconteça e isso jamais seria possível em um ambiente virtual que foi pensado e preparado metodologicamente para os adultos.

        Diante desta realidade, jamais poderíamos levar o ensino a distância para a educação infantil, tendo em vista a forma como a criança aprende, então, teremos um grande desafio diante de nós. Aproximar a escola da criança, valorizando em nossas interações, as vivências positivas e assim fortalecer os vínculos entre a escola e a família, seria o foco mais valioso a partir deste momento.    

Novas habilidades e experiências de superação

          Em nossas primeiras reuniões de trabalho coletivo nos foi dada a responsabilidade de desenvolver propostas de ensino e aprendizagem para os pequenos, proporcionando interações com recursos midiáticos diversos, cada uma das 127 escolas do município em São José dos Campos – São Paulo. Deveria escolher os recursos e desenvolver ações pedagógicas, dentro dos parâmetros que seriam direcionados pelas orientadoras de ensino da rede.

         E quais recursos escolher para o desenvolvimento destas ações? Seriam os vídeos? Reaproximação através de WhatsApp, Podcasts, interações remotas ao vivo com o uso de aplicativos como o zoom, Google Meet e outros? Que ações poderiam ser desenvolvidas e com que intencionalidade pedagógica deveríamos pensar em nossos objetivos?  Os vídeos proporcionariam interações como:  Conversa das professoras com as crianças (ao vivo), contações de histórias e aproximação através da música?  Os Podcasts proporcionariam o desenvolvimento da escuta da criança, utilizando os recursos de áudio que lhe são peculiares?

        Com um grande desafio em mãos, as professoras iniciaram um processo de busca ativa para aproximação das famílias por meio de ligações telefônicas. Estando de acordo, as famílias fariam parte de grupos de WhatsApp ou linhas de transmissão – que seriam criados por turma. A partir de então, este seria o meio principal de comunicação da escola com as famílias.

        Para implementar as propostas, passou-se a revisitar os planejamentos e reavaliar o que poderia ser feito na idealização das propostas. Neste momento percebi que as dificuldades eram latentes ao utilizar recursos midiáticos que não faziam parte do know holl de habilidades dos professores: Desenvolver o material escrito e adequado para o envio das propostas às famílias (através de PDF), fazer roteiros, preparar cenários, fazer uso de equipamentos para gravar e editar vídeos, fazer uso de aplicativos específicos (editor de vídeo e texto), fazer uso do google drive para armazenamento dos recursos produzidos, usá-lo também como suporte de materiais para documentação pedagógica e devolutivas para as famílias, desenvolver links para envio dos vídeos para as famílias, habilidade de escolher e formatar fotografias para envios dos documentos, etc. 

          Sendo fundamental e necessária a aprendizagem de novas habilidades, a rede de ensino, tem proporcionado uma série de formações na área da tecnologia, especialmente para suprir a carência dos professores. Com um certo conhecimento prévio das habilidades requeridas, optei por armazenar e disponibilizar as interações por mim criadas, no YouTube. Foi necessário configurar o canal pessoal e fazer o registro do que seria importante publicar, descrevendo objetivos com intencionalidade pedagógica. Pude refletir que o professor é convidado a tornar público ou não o seu canal. E por que não compartilhar o seu saber? O YouTube, além de uma rede social, está se tornando a propósito, o maior suporte de conhecimento de todos os tempos e tem sido muito requisitado. As ferramentas do Google For Education, tem sido altamente necessário e requisitado para uso em nossas interações. O aprendizado tem sido valioso.

         Não poderia deixar de relatar de como tem sido o resultado dessas interações: As famílias tem enviado áudios, vídeos, fotos de desenhos e artes que estão sendo realizados pelas crianças. Todas essas devolutivas farão parte de um relatório de documentação pedagógica. É possível perceber uma certa resistência de algumas famílias, de outras, a ausência total de resposta ou dificuldades em relação a tempo e recursos, mas existem famílias que estão vivenciando alegremente as interações, participando ativamente e mediando estes momentos com muito interesse. Tenho usado o bitmoji figurinha (com meu avatar), como estratégia de engajamento e aproximação com as crianças. Quando entregam as devolutivas das propostas, recebem suas figurinhas e com isso tenho obtido bons resultados de engajamento com as famílias. Posso dizer que tem sido muito gratificante e cada esforço está valendo a pena.             

          Para finalizar, te convido a refletir sobre o lema dos marinheiros: “navegar é preciso”. Seria possível relacionar tal lema à educação e aos educadores? Eu diria que sim! Diria que fomos lançados ao mar do conhecimento com ferramentas necessárias para navegar, sim! Nossas escolas são como transatlânticos, e temos o compromisso de acompanhar nossos pequenos na fase inicial do processo de alcance do seu destino, educando e cuidando. A viagem pode ser muito divertida e cheia de experiências e vivências saudáveis, pois a vida e o mundo lhes espera.  Por isso, todas as oportunidades de promover educação devem ser abraçadas com entusiasmo, sem medo de errar. Os tempos mudaram e precisamos nos reinventar. Podemos sim, usar todas as ferramentas possíveis a nosso favor, para derramar o que temos com todos os nossos esforços. A nós, cabe a responsabilidade de aproveitar o momento que estamos vivendo para crescer e fazer a diferença na vida dos pequenos. Afinal “ensinar é preciso”.  

AUTORA

Silvana Carvalho

Pedagoga, Especialista em Educação Infantil e Designer Instrucional

Atualmente é Professora de Literatura e Música na Educação Infantil 

Local: EMEIs Profa. Iracema de Oliveira de Mello e NEI Vicente Simião Luz.

Cidade de São José dos Campos – São Paulo.

E-mail: silvanabtomaz@hotmail.com

Instagram –  @silvanabtomaz

YouTube – Silvana Carvalho

Alguns trabalhos desenvolvidos na Pandemia:

Música: O elefante e borboleta (Para crianças de 1 ano e 7 meses a 3 anos e 11 meses)

Literatura: O Monstro das Cores (Para crianças de 4 anos a 5 anos e 11 meses)