Em meados de maio do ano corrente, pelas redes sociais, descobrimos que o regime de estudos não presenciais, ofertado pela Secretaria Estadual de Educação de Minas Gerais, teria início nos próximos dias. Esse episódio diz muito sobre o modus operandi da atual SEE. Nós, professoras e professores, tivemos conhecimento da implementação do novo regime não por fontes oficiais, tampouco por nossa chefia imediata, mas por redes sociais.

O regime deveria funcionar por meio das seguintes ferramentas: aulas transmitidas pela TV Minas – que, naquele momento, alcançava menos de um terço dos municípios mineiros –, um Plano de Estudos Tutorados, disponibilizado mensalmente pela Secretaria e, por último, um aplicativo com internet patrocinada pelo Estado, através do qual as alunas e os alunos poderiam ter acesso às aulas, aos PETs e ao chat que deveria simular uma sala de aula virtual – que, por sinal, só foi implementado duas semanas após a data prometida.

Acredito que a maioria de nós, profissionais em Educação, conhecedores do chão de sala, comprometidos com uma educação pública, emancipadora, democratizada e de qualidade, nos deparamos com o mesmo sentimento – uma espécie de angústia compartilhada – e pensamentos: será ineficiente, será insuficiente, é improvisado, é excludente. Quanto descaso. 

Na imprensa, a imagem construída pela Secretaria foi linda, admirável. Um material produzido com muito carinho por nossos professores. Com muito carinho. Por nossos professores. Quais professores, se não tivemos conhecimento de nenhuma chamada pública para elaboração de materiais? Que carinho, se nos deparamos com um material problemático, mal elaborado, com conteúdos plagiados, erros, pouco reflexivo e que reforça abordagens preconceituosas? 

Complicado, não é mesmo? O Estado até tentou garantir o material impresso para aqueles que não possuem nenhum tipo de acesso à internet. Mas recurso extra para impressões? Impossível! Nós, que temos o cotidiano baseado no chão de sala, sabemos das dificuldades materiais enfrentadas pelas escolas. Não consideram que deixar um aluno ou aluna para trás já é ferir uma garantia constitucional, o direito à educação. Essa proposta, no meu entender, é apenas o escancaramento dos princípios políticos do governo estadual, que nunca escondeu sua ideia de acabar com a educação pública e demonstra a cada dia ódio aos professores.

O regime teve início e nós, profissionais em Educação, fomos obrigados a nos renovarmos, nos adaptarmos, mesmo sem o apoio do estado para tão árdua tarefa. As cobranças não paravam de chegar. Passamos a utilizar nossos computadores e celulares pessoais como instrumento de trabalho – utilizando a nossa internet, nenhuma surpresa.

Como o contato com os alunos por meio do aplicativo é muito precário, uma vez que a ferramenta disponibilizada não é funcional, as maneiras encontradas e as ferramentas utilizadas para nos aproximarmos dos nossos estudantes foram as mais diversas: todas as redes sociais, Google Classroom, ligações e até mesmo mensagem de texto. E, apesar de tudo e de tanto, a sensação foi de estarmos longe da totalidade. 

Nos últimos meses, sendo sincero, tenho carregado um sentimento de frustração e impotência que têm me tirado o sono. Na semana passada, na tentativa de nos aproximarmos das experiências com a atual educação não presencial, ligamos, individualmente, para todas as famílias que conseguimos. Fiquei ainda mais assustado. Como pode a Secretaria fingir normalidade diante de tantas dificuldades e desigualdades? O que justifica tamanho descaso com a educação? 

O desrespeito que a Secretaria tem para com os seus alunos é o mesmo que tem para com os profissionais em Educação. Até agora não fomos escutados. Não houve, em nenhum momento, um espaço para que nós, professores, fôssemos ouvidos e questionados sobre nossos êxitos ou dificuldades.

Na escola em que trabalho, orgulhosamente, temos tentado, pela cultura, nos aproximar e manter nossas ligações, que são, sobretudo, emocionais. Educação envolve afeto, sociabilização, confiança. Estamos lidando com alunos em situações de extrema vulnerabilidade social. Alguns em luto. Por que essas necessidades não estão no universo de preocupações da secretaria? 

Desculpe o desabafo, mas cada mensagem e áudio recebido de alunas e alunos com queixas das dificuldades enfrentadas é um sufoco no coração de cada professor. Imagine, agora, os desabafos silenciados daqueles que não conseguem se comunicar? Para cada nó na garganta de uma queixa recebida, um aperto no peito por aqueles que não podem ser ouvidos. A proposta é cruel.

Diga a um aluno, que divide um celular com mais três pessoas em casa, que ele deve acompanhar aulas e resolver atividades semanalmente. Diga a uma aluna, que vive em uma região sem sinal de internet e nem de televisão – capaz de transmitir as aulas da SEE – que ela deve estar por dentro de tudo que é cobrado. Diga a uma mãe, sobrecarregada, que ela precisa auxiliar seus filhos em uma atividades que demanda tempo, didática e conhecimentos específicos. Diga a um aluno que tem fome que ele precisa estar por dentro de discussões que não levam em conta a sua – cruel – realidade. A educação pública não merece tanto descaso.

AUTOR

Júlio César de Gouvêa é graduado em História pela UFOP, professor da rede estadual de Minas Gerais e, atualmente, compõe o quadro de professores da Escola Estadual de Ensino Médio Monte Sinai – Esmeraldas/MG.