Os primeiros acontecimentos

No dia 12 de Março ficou decidido que as aulas seriam suspensas no país (Portugal), decisão que segundo o primeiro-ministro português, António Costa, se baseou “num parecer” do Centro Europeu de Prevenção e Controlo das Doenças (ECDC). O efeito prático desta medida foi a suspensão de todas as atividades letivas e formativas presenciais, em todas as escolas do país, e para todos os graus de ensino (básico, secundário e superior). Situando no tempo, a medida entrou em vigor a partir do dia 16 de março e estendeu-se até 13 de abril, medida essa que foi depois reavaliada a nove de abril.

No dia seguinte ao anúncio feito pelo governo, sexta-feira dia 13 de Março, ninguém na escola sabia exatamente como iriam decorrer as atividades letivas. O que se sabia é que não iriam ocorrer presencialmente.

Para o corpo docente a ideia principal subjacente às medidas tomadas pelo governo era a de cumprirem os seus horários sem componente letiva – portanto, marcando presença física na escola, mas sem alunos –, ao passo que para os alunos significava entrarem de férias quinze dias mais cedo. No final desse dia ‘os alunos foram para casa’ com muito pouca informação e com a sensação efetiva de já estarem de férias, daí que a maioria dos estudantes deixassem os manuais e materiais nos cacifos.

Durante esse fim-de-semana foi criado um grupo no whatsapp dos professores do meu departamento – ciências experimentais -, o qual envolve os professores de Matemática, ciências naturais e físicas e TIC. Aproveito a ocasião para dizer que sou professora de Física e Química do ensino básico e secundário, profissão que abracei há cerca de dezassete anos.

Foi durante esse fim-de-semana em particular, e após longas trocas de mensagens através do recém-criado grupo de whatsapp, que foi elaborado um documento a solicitar à direção da escola o não comparecimento físico dos professores, e em contrapartida poderem trabalhar a partir de casa – relembro que à época o número de casos de covid-19 aumentava de forma preocupante.

De salientar que esta deliberação feita pelo meu grupo disciplinar foi acompanhada por outros grupos disciplinares, portanto, em sintonia com a manutenção das aulas, mas numa vertente ‘à distância’, tirando partido das tecnologias existentes e comprovadamente eficazes.

Nesse mesmo fim-de-semana, concretamente no Domingo, a direção da escola decidiu que todos os professores iriam trabalhar a partir de casa, devendo elaborar fichas com o objetivo de serem colocadas no “centro de recursos” – repositório.

Primeiro momento – Ensino Remoto

Durante as duas semanas que se seguiram à deliberação da direção da escola, foram colocadas várias tarefas e atividades no centro de recursos, afim dos alunos consultarem e resolverem, sendo essas atividades e recursos de reforço e consolidação de aprendizagens.

As resoluções dessas tarefas/atividades – enviadas pelos encarregados de educação – eram posteriormente recebidas pelos professores via email institucional.

Várias questões se colocaram com a adoção desta modalidade – inteiramente nova para todos os intervenientes –, pois o contexto escolar é muito desfavorecido, onde a maioria dos alunos não tinha sequer acesso à internet, e os que tinham faziam-no através do telemóvel.

De referir, e para um melhor enquadramento do contexto escolar, a escola localiza-se na periferia de Lisboa, contabilizando quase 80% dos alunos a beneficiar de ação social escolar.

Posso relatar que inúmeros encarregados de educação acediam aos materiais através do telemóvel, claramente um instrumento inadequado para o que se pretendia no que toca ao acesso aos materiais em formato digital, uma vez que o centro de recursos se estrutura através de pastas e ficheiros – ainda ativo.

Para contornar a dificuldade/incapacidade desses encarregados em aceder aos materiais (ou aceder eficazmente), fiz chegar-lhes as fichas de todas as disciplinas através de correio eletrónico – tarefa que tinha de ser executada disciplina a disciplina, e sempre que havia novos materiais.

De sublinhar que de início não tive acesso a todos os endereços de correio eletrónico dos encarregados de educação, lavando a que muitos alunos não pudessem acompanhar durante algum tempo o reforço de conteúdos.

Preparação do E@D

Paralelamente foram estabelecidos contatos telefónicos junto dos encarregados de educação, com a vista a saber os meios tecnológicos disponíveis, a capacidade de acesso aos materiais, aproveitando essas oportunidades para fazer um acompanhamento do aluno junto dos pais.

Passadas estas semanas, os alunos entram então efetivamente de férias, conforme o calendário escolar, e o governo decide que o terceiro período seria inteiramente lecionado a distância. Paralelamente o Ministério da Educação fez retomar um velho projeto dos anos 60, a telescola. Criada em 1965, tinha por objetivo permitir o cumprimento aos alunos da escolaridade obrigatória, na altura o 1.º e 2.º anos do Ciclo Preparatório (atual 2º ciclo do Ensino Básico). A nível geográfico a telescola pretendia servir as zonas rurais isoladas, mas também zonas suburbanas com escolas superlotadas. Assim, e retomando esse programa ‘antigo’, e em parceria com o canal púbico televisivo Memória, os alunos do ensino básico passaram durante o período de pandemia a ter acesso aos conteúdos e aulas pela televisão através do programa #EstudoEmCasa.

De forma complementar, e com a atenção devida aos alunos mais carenciados, a escola possibilitou o empréstimo de tablet’s, ao passo que a Câmara Municipal disponibilizou a rede de internet móvel, ferramentas que alguns alunos não dispunham de todo.
São os diretores de turma que, através de telefone próprio, contactam os encarregados de educação para fazerem o levantamento das necessidades tecnológicas. Ainda assim, e apesar dos esforços, os meios tecnológicos não chegaram para todos, e por esse motivo alguns alunos tiveram de receber (semanalmente) em mão os materiais escolares – um funcionário da junta de freguesia entregava e levantava esses materiais porta-a-porta.

Rapidamente a direção da escola decide que teria de abandonar o repositório e que seria uma plataforma digital a forma privilegiada para garantir a modalidade de ensino a distância, tendo sido escolhido o Microsoft Teams, como a mais adequada ao contexto.

Segundo momento – Ensino a Distância

Em virtude do plano de contingência em vigor e por terem sido suspensas as atividades letivas presenciais, as atividades letivas continuaram a ser desenvolvidas e promovidas a distância preferencialmente na plataforma TEAMS. 


Feita a opção, coube a um membro da direção dar formação a todos os professores, a qual se realizou durante uma semana.

A plataforma Microsoft Teams, refira-se, permite agregar várias ferramentas, criando assim um cenário de aprendizagem personalizado. Sem dúvida que esta escolha facilitou a comunicação entre professores e alunos. O passo seguinte foi descobrir quais as competências digitais destes pois “(…) por vezes, parte-se do pressuposto que os alunos sabem usar as tecnologias, mas nem sempre isso acontece (…)” (Carvalho, 2015).

Tendo eu um mestrado na área da pedagogia do e-learning e dez anos de experiência no ensino a distância no ensino superior, o processo de transição não foi difícil, contudo tive de aprender a trabalhar com a plataforma Microsoft Teams, e com as restantes ferramentas associadas. A minha maior dificuldade foi o desenho pedagógico da disciplina de Física Química do 7º ano. Estando eu habituada a trabalhar com a plataforma Moodle de forma colaborativa, no Teams esbarrei com várias dificuldades para definir trabalho colaborativo com os alunos, por exemplo, a criação de fóruns para reflexão sobre a temática da energia não foi um processo pacifico.

Neste âmbito surgiram várias dúvidas:

– Como fazer o desenho pedagógico da minha disciplina?

– Como criar uma dinâmica colaborativa com os alunos na plataforma?

– Como criar um fórum na plataforma para os alunos poderem debater temas?

Além das dúvidas relatadas, encontrei dificuldades na organização da plataforma, que passo a citar. O espaço de publicações – suposto fórum do ‘Teams’ – não permite uma organização efetiva da disciplina por temáticas, pois são alunos com 12 anos de idade a ter de criar diversos canais para as diferentes temáticas, o que não é encorajador para a utilização da plataforma, e menos ainda facilitador. Várias foram as minhas dificuldades e tentativas de exploração da plataforma para ir ao encontro da faixa etária e de um desenho pedagógico. Seria mais simples introduzir outras aplicações fora do Teams afim do complementar ou trazer ferramentas mais simples de utilizar, mas essa abordagem introduziria entropia, faria dispersar os alunos por um sem fim de aplicações, com subsequentes registos em cada uma delas, aumentando o risco de desorientação dos alunos.

No que respeita ao trabalho semanal, ficou dividido em momentos síncronos de 30 minutos e em momentos assíncronos, onde os alunos através da plataforma tinham tarefas semanais, tais como, fichas de trabalho, fichas formativas, debates, nuvem de palavras, questionários, mapas conceituais, elaboração de vídeo com recurso a experiências feitas na cozinha, entre outras. A Tarefa – assim designada na plataforma Teams – são diferentes atividades em que os estudantes realizam em interação com os conteúdos e as indicações que lhes são fornecidas. A Tarefa era constituída por diferentes atividades, entre as quais (semanalmente) uma atividade especifica baseada no programa #EstudoEmCasa, tendo assim caracter obrigatório a visualização da aula semanal de Física e Química. De referir que a Tarefa era colocada na plataforma, sempre no mesmo dia, com indicações claras do que se pretendia.

Os momentos síncronos foram utilizados para esclarecer dúvidas, dar feedback geral e orientar os alunos para as tarefas dessa semana. Nunca utilizei estes momentos síncronos como “aulas” por videoconferência de forma a introduzir conteúdos, mas tentei sim nortear o processo de aprendizagem dos alunos de forma a desenvolver-lhes as competências, nomeadamente no aprenderem a estudar de forma autónoma, e como aprender o essencial e saber usar e comunicar o que sabiam/aprendiam.

Acabei por definir prioridades em termos de competências a desenvolver nos alunos, tais como a autonomia, autoaprendizagem, gestão de tempo e organização do estudo e trabalho. É verdade que nestas idades a falta de maturidade e de capacidade de autoestudo é muito evidente. Daí que nestes últimos meses tive como máxima para os alunos o realizar a Tarefa, cumprir prazos, fornecer feedback efetivo por integração das correções e de comentários e fazer autorreflexão.

Como forma de reforçar a orientação na navegação, e além de colocar a informação da Tarefa nas publicações, enquanto diretora de turma criei no Outlook um calendário com a minha direção de turma para definir um cronograma das Tarefas das várias disciplinas.

Por fim, tentei ao máximo envolver ativamente os alunos na sua própria aprendizagem, mas nem sempre foi fácil para os jovens estudantes, que na sua maioria, é-lhes mais fácil ser um elemento passivo na sala de aula, em que não tenham de exercitar, refletir, explorar. Isto foi especialmente evidente no questionário que apliquei na última semana de aula, relativamente ao 3º período, onde os alunos manifestaram maior interesse e gosto pelas Tarefas estanques, tais como, os questionários no Microsoft Forms. Acredito que este paradigma terá de mudar, cabendo ao professor mostrar o outro lado… o de aprender a aprender.

AUTORA

Licenciada em Física e Química pela universidade de Aveiro, mestre em pedagogia do e-learning pela universidade Aberta e pós-graduação em educação especial pelo instituto superior de Satarém