por Maria Tatiane da Silva Cunha

Aquele que sabe ler nas emoções tem o livro do homem aberto ante seus olhos.                                                                                                                              V. J. Wukmir

A presente escrita parte da concepção de que o papel do Educador vai muito além das obrigações pedagógicas, pois o só transmitir conhecimento, preservando apenas o cognitivo já não cabe mais em nossa era.

Há algum tempo se discute a ideia de humanizar a Educação, de formar seres humanos mais equilibrados emocionalmente, pois se acredita que a fase mais delicada e de maior formação se encontra na infância. Concordamos com Wallon quando ressalta ser a formação psicológica uma forma de assegurar a competência do professor que, conhecendo o desenvolvimento infantil, poderá organizar uma ação adequada às reais necessidades dos seus alunos. (ALMEIDA. 2012, p. 17)

Henri Wallon (2007), em seu livro “A criança turbulenta”, destaca a emoção como sendo formações tônicas e posturais, onde consiste numa variação do tônus, que se expressa numa série de atitudes. As emoções mais primitivas, raiva e cólera, são destacadas, segundo o autor, no estágio impulsivo, vindo em seguida à alegria, o medo, e a tristeza.

Por sua natureza expressiva, a emoção é contagiosa e orienta a criança para o meio social, com o qual desenvolve uma modulação mútua recíproca das mímicas e das atitudes e que liga cada vez mais estreitamente a criança às pessoas. (Wallon, 2007, p. 16)

A emoção desempenha um papel essencial na gênese do psiquismo, tendo a junção de duas etapas, a automática e a intencional. É este último que elabora imagens e representações, é por isso, que os traumatismos emocionais na infância podem causar consequências desastrosas, podemos citar uma observação feita por Wallon em uma criança, que segundo o autor foi vítima de um terror-choque; essa mesma criança passou-se por normal até os 7 anos, nesta mesma idade foi aterrorizado pelo incêndio do quarteirão onde morava,  nesta ocasião foi notada sua turbulência vã e sem finalidades, onde demonstrava atividades no qual teria desaparecido toda influência intelectual.

Para Galvão (2011), a emoção se encontra na origem da consciência, operando a passagem do mundo orgânico para o social, do plano fisiológico para o psíquico. Por exemplo, o que faz uma criança a não dar atenção a uma pessoa estranha, graças ao medo e desconfiança que sente, faz afastar-lhe de algo perigoso.

No adulto as crises emotivas são menos frequentes, como ataque de choro, birras, surtos de alegria, tão comuns no cotidiano da criança. As emoções aparecem reduzidas, pois são subordinadas ao controle das funções psíquicas superiores, como a linguagem, a lógica, concepção de mundo, e a representação. 

Ao deparamos com as emoções e inteligência dentro de uma sala de aula se torna impossível ignorar a presença das mesmas. Para Almeida (2012), ao produzir intelectualidade é essencial não se submeter ao poder da emoção, pois enfraqueceria a percepção do mundo real e consequentemente, diminuiria o nível de atividade intelectual do sujeito, ou seja, se faz necessário o equilíbrio entre ambos.

O indivíduo terá a emoção presente durante toda sua vida, mesmo em seu estado mais sereno a emoção se encontrará como latente. Porém, de acordo com Almeida (2012, p.82) “Que se nenhuma atividade, por mais intelectual que seja, suprime a emoção, nenhuma situação emocional, por mais intensa que seja, elimina completamente a presença da razão”.

É pertinente questionar se a emoção possui toda uma capacidade de perturbar nosso equilíbrio numa sociedade no qual a racionalidade é uma palavra de ordem, seria ela completamente danosa para nossa vida?

Afirmamos que não, pois na opinião de Wallon (2007), as conquistas realizadas no plano emocional são apreendidas também pela inteligência e vice-versa. 

Porém manter o equilíbrio entre a emoção e a razão, e estar bem, tanto emocionalmente quanto intelectualmente favorece o equilíbrio da pessoa?

O mesmo autor afirma que sim, pois os conflitos são essenciais para o desenvolvimento da personalidade. Os conflitos de ordem emotiva incentivam a evolução dos indivíduos na medida em que superá-lo exige a permanência da serenidade, onde se consegue manter a racionalidade, ou seja, o equilíbrio entre a razão e a emoção; tendo como consequência um maior amadurecimento tanto da afetividade quanto da inteligência.

Ao pensarmos no homem contemporâneo é fundamental entender o seu biopsicossocial, Panizzi (2010) afirma que é preciso levar em conta o sujeito concreto, contextualizado no tempo e no espaço, que pensam, sofrem, amam, criam, seres geradores de conflitos e heterogeneidade.

Se ao juntarmos esses sujeitos complexos em uma sala de aula, o mesmo espaço torna-se ambiente revelador de vivências e convivências de valores e ideias. Por isso, a importância de considerar a relação entre emoção e atividade intelectual em nossas salas de aula, tomando consciência que tanto o aluno quanto o professor estão sujeitos a vulnerabilidade das circunstâncias emocionais que procedem ao processo de ensino-aprendizagem.

Sabendo que as emoções possuem o poder de contagiosidade, por surge em momentos mais vulneráveis do indivíduo, portando dificilmente se pode prevê-las, os professores, por sua vez, quando não conhecerem os possíveis índices de uma emoção, geralmente, entregam-se ao seu contágio, e consequentemente passam a fazer parte do “circuito perverso”.

Segundo Dantas (1993), classifica-se circuito perverso, quando o indivíduo não consegue agir de forma racional diante de reações emocionais de outras pessoas, envolve-se de tal forma nesse circuito que se torna alheio a realidade das ações ao seu redor.

Deste modo, desgasta fisicamente o professor, comprometendo sua atuação em sala de aula, e consequentemente prejudicando o aluno, assim, podemos afirmar que o estado emocional do professor tem implicações nas ações pedagógicas. Além do mais, não saber lidar com as emoções como a raiva, na sala de aula, muitas vezes conserva o jogo entre professor e aluno naquilo que Almeida (2012) chama de “bate-rebate”, que se torna um estágio de total contágio e de incapacidade por parte do professor para tomar uma atitude racional diante da emoção. 

Embora que entendamos o sócio histórico da criança, deve-se tomar cuidado para não taxá-la como “a coitada”, reduzindo as possibilidades de intervenção por acreditar que a sua vida já não possui nenhuma perspectiva, deve-se levar em conta, como afirma Nunes (2009, p.85) “que a criança ainda assim pode carrega consigo a capacidades de se reerguer, recuperar a sua dignidade, e até mesmo de superar de alguma forma o que lhe causa tanto sofrimento, angústia e medo”

A sala de aula é um ambiente onde as emoções se apresentam, assim como em qualquer outro ambiente social, existem diferenças e conflitos que exprimem diversas emoções. Sendo que a fase emocional na infância se expressa com mais abundância, onde a criança carrega em si diversas formas de manifestações sem lapidação.

Sempre que falarmos em ação pedagógica, se faz necessário agregar o desenvolvimento físico, intelectual e social do indivíduo que recebe essa ação, onde estarão ali também presente as emoções exercendo influência sobre todo esse processo.

Dentro deste contexto deve-se oferecer a criança a autoestima, dando-lhe votos de confiança, para que ela passe a se reconhecer como pessoa digna de valor e estima, pois a mesma quando cresce com suas capacidades produtivas e criativas estimuladas, é mais propícia a se adaptar com menos complicações a novas situações.

Porém sem dúvida alguma, nesta ação, é indispensável o uso dos limites e regras no trato com as crianças, pois conviver também com a palavra Não muitas vezes é essencial para a sua formação como pessoa. Dá afeto aos alunos não significa que não necessite de pulso firme ao trabalhar com os mesmos, mas sem que para isso seja necessário impor-lhes medo em lugar de respeito, distância e frieza no lugar de atenção; afeto não se resume em beijo e abraço, e sim,  escuta ativa, diálogo e a mediação, possibilitar à criança novas possibilidades.

Neste contexto, pode-se afirmar que a escola é um ambiente rico de interações e aprendizagem, pois a mesma diferencia-se da família, ela propicia uma maior mobilidade para ampliação de diferentes conhecimentos, desempenhando um papel fundamental no desenvolvimento sócio afetivo e intelectual da criança.  A escola se torna, muitas vezes, o único espaço onde algumas crianças recebem afeto, atenção e esperança.

O Educador em sala de aula pode transformar a emoção dos alunos em uma atividade intelectual, como por representações, onde se torna um meio de reduzir uma crise emocional, ou seja, através de roda de conversas onde eles podem se expressar oralmente; dramatizações teatrais; músicas; ludicidade; dinâmicas e jogos que necessite o uso da razão, que fazem o aluno pensar sobre sua ação; escritas que exponham opiniões próprias; desenhos livres. ler para a criança ajuda a resolver problemas do subconsciente, além de causar prazer, proporciona saúde psíquica, e um melhor desenvolvimento no processo de individuação.  Como afirma Almeida (2012, p.87) “é exprimindo ao outro, em gestos ou em palavras, o que sentimos é que abolimos um estado emocional. A dissolução ocorre pela transformação da emoção num objeto de atividade mental.”

Se a responsabilidade do Educador de hoje em dia é de contribuir para a formação da personalidade de seus educandos, não basta priorizar apenas a construção sistemática do conhecimento, é de necessária importância a edificação da afetividade infantil.

Levar em conta as emoções em sala de aula não significa que o Educador deva agir como um psicoterapeuta, isso é uma questão de sensibilidade, atitude e humanidade, pois trabalhar com pessoas é compreender a beleza e complexidade da globalidade humana.

Autoria: Maria Tatiane da Silva Cunha

Graduação em Licenciatura Plena em Pedagogia pela Universidade de Santo Amaro (2013). Experiência na área de Educação, com ênfase em Educação Infantil e Ensino Fundamenta I, especialidade em Língua Brasileira de Sinais (Libras) pela Escola Interlibras, concluído em 12/2014. Pós-graduada em Psicopedagogia Clinica e Institucional pela Universidade de Santo Amaro, concluída em 2015, e pós-graduação em Neurociências na Educação, conclusão em 07/2018. Pós-graduação Lato sensu em Gestão da Educação Pública, pela UNIFESP, conclusão em 2019. Atuante como Professora de Desenvolvimento Infantil na rede Municipal de Itapecerica da Serra, Tutora EaD e presencial, Asistente administrativo NEAD EAD Laureate.